segunda-feira, março 12, 2007

Voar no Tempo


Hoje acordei e fui ao Alentejo. Que paz.
Tudo tão branco, tanto sol, tanto calor à uma e meia da tarde.
A vida derretia-se, quente, quente.
Ninguém. Nas ruas, só renques de casas de rés-do-chão, caiadas na Páscoa, barra azul a impedir a entrada aos maus espíritos. O diabo que os carregue.
O diabo que carregue as coisas más, que carregue para longe esta tristeza infinita, os medos, as incertezas.
Corre diabo, corre, corre! Esconjuro-te! Vai, vai. Vai para o monte do enforcado e enforca os meus males na oliveira secular, de tronco oco, torcido, torturado.
Passei a tarde, livre, a tarde e eu, no terraço, no alto de S. Gens.
Começou a soprar vento forte. Ai que bom, o vento na cara, no cabelo, no corpo todo, que prazer!
Que prazer: ver o vento trazer a chuva, arrastar a trovoada; estar ali, e sentir o vento.
Asas.
Quero asas para voar sobre as cores da Terra a perder de vista.
As cores da terra liquefizeram-se, de repente, sob a chuva. Quente e grossa, embebeu os barros, deixando-os lamacentos e brilhantes.
Cinco da tarde, 230 quilómetros até Lisboa, começava a trabalhar às 19h30m.
Mozart alto para não conseguir ouvir mais nada, para me atordoar, não pensar.
É preciso não pensar. Só ver, só ouvir. Só ver a estrada, só ver a cor alentejo-chumbo-brilhante, só cheirar a terra molhada e ouvir Mozart cantado em alemão.
E não pensar, só lembrar. Eu ainda sou a mulher jovem que viveu no Alentejo. Que ali pariu dois filhos e plantou árvores, flores, arbustos. Que nadava nos pegos e deixava as cobras-dágua enrolarem-se às pernas, nas tardes cálidas . Que tinha cães no Alentejo: a Caniche Gigante e os seus dois cachorrinhos, o Serra da Estrela, a Cocker Spaniel que abandonaram na estrada e veio ter à minha porta, e a Rafeira sem dono que amei tanto.
Eu sou a que, no Alentejo, brincava com os filhos e com a terra fazendo corridas sob a chuva quente de Maio e aterrando nas poças de lama. E no Outono, juntos, estalavamos folhas de plátano secas sob os pés e íamos espreitar as romãzeiras atrás da casa e roubar os medronhos maduros.

Eu sou a que vai ao Alentejo visitar-me.

i
1 de Junho de 2005


3 Comments:

Blogger ESTÓRIAS DE ALHOS VEDROS said...

Eu também. Vou ao Alentejo para me ver. Vou mesmo quando não vou (fisicamente). Mas estou lá de raíz, preso à terra como uma árvore, que vai deixando sementes perto de Lisboa.

13 março, 2007  
Anonymous Anónimo said...

Olá Isabel!
Que é feito?
Gosto de saber que continuas activa na Blogosfera, sempre a publicar coisas interessantes.

Dialógico

13 março, 2007  
Blogger I said...

olá Dialógico! :-)

14 março, 2007  

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