quinta-feira, outubro 26, 2006

O que passou, passou?

Antigamente, se morria
1907, digamos, aquilo sim
é que era morrer.
Morria gente todo dia,
e morria com muito prazer,
já que todo mundo sabia
que o Juízo, afinal, viria,
e todo mundo ia renascer.
Morria-se praticamente de tudo.
De doença, de parto, de tosse.
E ainda se morria de amor,
como se amar morte fosse.
Pra morrer, bastava um susto,
um lenço no vento, um suspiro e pronto,
lá se ia nosso defunto
para a terra dos pés juntos.
Dia de anos, casamento, batizado,
morrer era um tipo de festa,
uma das coisas da vida,
como ser ou não ser convidado.
O escândalo era de praxe.
Mas os danos eram pequenos.
Descansou. Partiu. Deus o tenha.
Sempre alguém tinha uma frase
que deixava aquilo mais ou menos.
Tinha coisas que matavam na certa.
Pepino com leite, vento encanado,
praga de velha e amor mal curado.
Tinha coisas que têm que morrer,
tinha coisas que têm que matar.
A honra, a terra e o sangue
mandou muita gente praquele lugar.
Que mais podia um velho fazer,
nos idos de 1916,
a não ser pegar pneumonia,
e virar fotografia?
Ninguém vivia pra sempre.
Afinal, a vida é um upa.
Não deu pra ir mais além.
Quem mandou não ser devoto
de Santo Inácio de Acapulco,
Menino Jesus de Praga?
O diabo anda solto.
Aqui se faz, aqui se paga.
Almoçou e fez a barba,
tomou banho e foi no vento.
Agora, vamos ao testamento.
Hoje, a morte está difícil.
Tem recursos, tem asilos, tem remédios.
Agora, a morte tem limites.
E, em caso de necessidade,
a ciência da eternidade
inventou a criônica.
Hoje, sim, pessoal, a vida é crônica.

P.Leminski

12 Comments:

Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Anonymous Anónimo said...

Onde andam as Dunas?

30 outubro, 2006  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Isabel
A "vida" é eterna... o nosso corpo não.
Um beijo
Daniel

30 outubro, 2006  
Blogger Daniel Aladiah said...

Querida Isabel
A "vida" é eterna... o nosso corpo não.
Um beijo
Daniel

30 outubro, 2006  
Blogger I said...

Geleia: as Dunas andavam por maus caminhos e , por isso, foram severamente punidas e condenadas às masmorras húmidas e frias, vedadas a visitas ao público, na Torre de Belém.Quando quiseres lá passar e atirar-lhe uns pastelinhos com muita canela , através das grades, estás à vontade!

30 outubro, 2006  
Blogger I said...

Daniel; não partilho das tuas certezas.Mas também não nego a hipotese da sua veracidade. Continuo a procurar. :-)

30 outubro, 2006  
Blogger I said...

Daniel; não partilho das tuas certezas.Mas também não nego a hipotese da sua veracidade. Continuo a procurar. :-)

30 outubro, 2006  
Blogger I said...

Daniel; não partilho das tuas certezas.Mas também não nego a hipotese da sua veracidade. Continuo a procurar. :-)

30 outubro, 2006  

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