terça-feira, outubro 24, 2006

Frésias

Frésias são flores com cheiro a chá
e ela, aos trinta e sete anos, preferia-as
às flores que se vendem por aí
admitia a beleza mas não o esplendor
porque são tristes as repetições
num instante se tornam saberes
e ela, aos trinta e sete anos,
prezava apenas os segredos que mesmo ditos
permanecem como segredos

(em certas épocas, por alguma porta esquecida
escapava-se sonâmbula, para o pátio
que dá acesso à mata
e, por vezes, iam buscá-la
gritando o seu nome ou com a ajuda dos cães
já muito longe de casa

tinha por hábito acender fogueiras
de que, depois, se esquecia
e por isso também os aldeões
a temiam)

nunca compreendeu a natureza da vida doméstica
intensa e aflita criança
incapaz de certezas

o que de mais belo soube
sempre o disse, de repente,
a alguém que não conhecia

José Tolentino de Mendonça

2 Comments:

Blogger I said...

Frésias é para a Esteva

24 outubro, 2006  
Blogger Esteva said...

Que honra, a minha! Obrigada.Há coisas neste poema q eu acho q têm a ver comigo (q presunção!) e fiquei espantada por mo dedicares. Depois lembrei-me que tu és uma mulher sensível e percebi que talvez tenhas entrevisto mais do que tagarelice.Curiosamente, é justamente essa a minha idade: 37 anos. Um abraço (que é mais do que um beijo).

25 outubro, 2006  

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