terça-feira, janeiro 16, 2007

Uma estranha f(r)ase

Fernando Pessoa escreveu, um dia, uma estranha frase que, quando li, não entendi completamente:" Vive-nos a vida, não nós a vida".
Pessoa era um caos de espírito, munido de uma suprema inteligência e de uma genialidade única. Conseguia passar para a escrita o ridículo, a pequenez e a tragédia da existência humana.
"Vive-nos a vida, não nós a vida"...Quando li, desafiei o escritor e pensei" isto nunca me irá acontecer, não vou permitir que a vida me viva". E iniciei uma guerra, por vezes guerrilha até, numa tentativa de ser eu a vive-la e não permitir ser vivida por ela.
Mas o Tempo devora-me. Não pára, segue, segue sempre, não sei se em frente: nada entendo das direcções do Tempo. Antes eu era eterna, nunca pensava na morte. Tomei consciência da minha perenidade quando surgiram as primeiras maleitas crónicas e sem retrocesso, quando ao olhar para a minha filha reparei que estava da minha altura, quando os meus familiares mais próximos começaram a morrer...
Vive-nos a vida, não nós a vida, dizia Pessoa e eu desafiava-o: eu vou ser dona da minha vida, conduzir-me para onde eu quero, chegar onde pretendo. Serei eu a segurar as rédeas, a dominar a minha vida. Estava convencida que era um deus.
Pensava que poderia escolher os caminhos, decidir nas encruzilhadas. Pensava que existia o Livre Arbítrio e pensava até que o pensamento fosse livre.
Mas nada disso é assim. Os caminhos escolhem-nos, as encruzilhadas só existem na nossa imaginação e o pensamento não é livre pois são os meandros do nosso cérebro que determinam o que pensamos, a forma e a profundidade das suas circunvalações ditam as nossas decisões; as nossas hormonas , as nossas emoções e os nossos humores , os nossos sentimentos.
Vivemos a vida? Vivemos na vida? Vive-nos a vida? Vive a vida em nós?
i

2 Comments:

Blogger Daniel Aladiah said...

Não somos completamente autónomos, mas também não somos completamente dependentes da vida. Situamo-nos no continuum entre tais extremos de forma dinâmica e em função dos ciclos da própria vida. Contudo, não deixaria de ser optimista, pois considero ser a melhor estratégia para que possamos atribuir algum valor à vida que nos resta.
Já agora, se fosses só o produto das tuas circunvalações cerebrais, eu diria: que belo e e maravilhoso cérebro tu és :)
Somos mais do que isso, acredita. Somos, essencialmente, uma alma que está limitada pelo cérebro que temos, pela física em que nos materializamos. Apesar disso, nota-se que a tua alma progrediu (o porquê de termos de andar na "escola" é que não sei...), pois estás cada vez mais bela num sentido lato, não notas?
Um beijo
Daniel

16 janeiro, 2007  
Blogger I said...

Daniel, este texto é de dezembro de 2005.Agora já não o escreveria. Já penso de forma um pouco diferente.Entraria em colisão com a que eu era há um ano atrás.Hoje já sou bem mais.(nem que seja só bem mais velha, cronologicamente falendo, mas não deixo de ser bem mais).Quanto à beleza, acredito que sim:os anos fazem-nos mais velhos e mais belos à medida que nos tornam mais tolerantes com os outros , à medida que sofremos mais e mais e vemos qeu nada vale grandes esforços, à excepção dos grandes sentimentos.São a única coisa que merece ser vivida.O resto...é paisagem.Manobras de diversão.

16 janeiro, 2007  

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