terça-feira, outubro 03, 2006

As Mutações da Máscara

Os Outonos da existência e a existência no seu Outono


Hoje está um dia em que caem folhas entre a vertigem das gotas de chuva. O céu chora, as árvores despem-se em luto e prostração. Tomba a época da criação e da colheita dos frutos da imaculada natureza. Jazem as sementes para o recapitular atempado do triunfo da vida. Morre-se depois de vivo, mas é preciso morrer para se gerar a vida. O perfume do mistério da criação. Tão simples e natural para uma compreensão humana tão complexa e ansiosa pelo artificial.

Serram-se, âmbar a âmbar, as horas de luz dos dias. Reduz-se a alegria do SOL e pacificam-se os espíritos bronzeados com a frescura doce dos rápidos crepúsculos das tardes minguantes.
Os semblantes dos transeuntes untam-se de castanhos e amarelos-torrados, empalidecem com a retoma dos trabalhos a com a soma de mais um ano. O fumo do assador de castanhas, tudo isso relembra, tudo isto acentua e aromatiza…

Já vai o solo pejado de matéria orgânica, o húmus enriquecido de novo fertilizante; já vai o pensamento pleno de epílogos de relações, acontecimentos e eventos, o coração de amores e projectos prometidos. O ciclo entra na sua curva cava, para ganhar fulgor na descida e acelerar para a subida crescente e primaveril, que se adivinha ao fundo, após a contracção fria.
Mudam-se as roupas, mudam-se as vontades… tiram-se as máscaras sazonais do armário. Jano inicia a sua marcha para o trono do presente de onde contemplará o alcance infinito de passado e futuro. Não falta tudo para termos um pé num ano e o outro pé no ano seguinte.
Granjeiam-se e guardam-se religiosamente os saberes e os sonhos que se vão apostar quando chegar a hora oportuna. Hiberne-se um pouco a ousadia e a propensão ao risco porque os rigores do General Inverno estão próximos; resguarda-se a áurea do SER para quando chegar o degelo.

E, de Outono em Outono, rasgadas as folhas sucessivas do anuário, depressa tocamos o Outono da vida. E o que fizeste na tua Primavera e no teu Verão? Semeaste e colheste para guardar agora e superar depois, ainda em alegria, ainda iluminado, o Inverno?
Atiraste ao vento a amizade e disseminaste amigos? Plantaste o bolbo do AMOR e tens agora a árvore frondosa do companheirismo e da parceria incondicional? Entranhaste o enxerto do divino na mãe terra e fizeste crescer o milagre da gestação dos teus descendentes? Fizeste do trabalho, pão? Criaste memória? Levantaste obra, com paixão? Deixas saudades, quando partires?...

Se soubeste encantar a beleza e fecundidade de Eros e Vénus na juventude, se soubeste cativar a astúcia e a força de Ulisses e Hércules no estio, usufrui agora da ponderação e contemplação de Zeus e Hera, enquanto esperas pelo entardecer no teu Olimpo e o descanso plácido de Hades. Como cheiram bem as castanhas assadas…

…FORÇA E HONRA!
Jorge Pópulo

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