domingo, outubro 01, 2006

Já o tempo se habitua

Já o tempo se habitua
A estar alerta
Não há luz que não resista
À noite cega
Já a rosa perde o cheiro
E a cor vermelha
Cai a flor da laranjeira
À cova incerta

Água mole água bendita
Fresca serra
Lava a língua lava a lama
Lava a guerra
Já o tempo se acostuma
À cova funda
Já tem cama e sepultura
Toda a terra

Nem o voo do milhano
Ao vento leste
Nem a rota da gaivota
Ao vento norte
Nem toda a força do pano
Todo o ano
Quebra a proa do mais forte
Nem a morte

Já o mundo se não lembra
De cantigas
Tanta areia suja tanta
Erva daninha
A nenhuma porta aberta
Chega a lua
Cai a flor da laranjeira
À cova incerta


Entre as vilas e as muralhas
Da moirama
Sobre a espiga e sobre a palha
Que derrama
Sobre as ondas sobre a praia
Já o tempo
Perde a fala e perde o riso
Perde o amor


Zeca Afonso

1 Comments:

Anonymous Andarilhus said...

Na vida há tempo para tudo, inclusivamente, tempo para a vitória e tempo para a derrota (se for caso disso).
Se as forças que nos oprimem são dominadoras e provocam a angústia da consciência da irremediável perda do jogo, a astúcia está em permitirmos a subjugação e aceitarmos as regras impostas, sem deixar esmorecer ou apagar a chama da resistência. Aguardar então pelo momento oportuno para rompermos com os grilhões quando o "inimigo" mais nos subestima. A derrota aparente, a derrota exterior podem ser energias para incrementar o esforço da alma. Parece que quebra a proa, mas o barco lá vai, de onda em onda, para porto seguro…

02 outubro, 2006  

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