domingo, fevereiro 12, 2006

Canção Metafísica

Eu vi o Deus perdido em um país inquieto,
O Deus assassinado p'lo mortal Voltaire,
E dentro da capela, já bem ressurrecto,
O negro coração de Charles Baudelaire.

Esse Deus é que fala aos justos e aos heróis,
À Luz imaculada, ao vate verdadeiro;
Chorando em roucos sons, na vastidão dos sóis,
Eu vi vertendo pus o sangue do Cordeiro.

Oiçam-nO respirar; na praia mais abjecta
Há mornas prostrações, delírios de Luar...
E um anjo me viu e disse: -«Oh grande Poeta,
Não faças dessa Luz a larva tumular .»

Mas o Deus projectava na praia uma sombra,
Um misto de Luz e de grande rebeldia,
E eu espreitei e vi, deitado numa alfombra,
Satanás dormitando na minha Poesia.

E eis que Deus lhe disse: -«Oh anjo fulminado,
Tu eras uma vez meu anjo predilecto;
Porém roubaste a Luz, por causa do pecado
Rastejas como um verme aos pés do Paracleto.

Eu dei-te a esmeralda que tinhas na testa,
O verde rubi dessa grã Sabedoria,
Mas por a tua voz não ser a voz modesta,
Condenado estás ora ao mundo da anarquia. »

E então essa serpente, com voz de trovão,
Encapelou o mar, encapelou a vida,
E disse sob a forma de um vil garanhão,
Com olhos flamejantes e voz de suicida:

-«Trabalhei no inferno p'ra ter Liberdade,
Sou possesso de altura, mas vivo num cabo
Onde os homens do mar, com grã fatalidade,
Encalham os navios e chamam-me Diabo.

Mas, cansado da noite, do reino das trevas,
Há muito que já espero uma bela alvorada
Que mude o meu Destino e me leve onde levas,
Oh Deus imarcescível do Império do Nada.

E eu só quero dormir, encostar a cabeça
No seio do meu Pai, minha Luz da quimera,
E não quero que nada no mundo me impeça
De ver os rouxinóis e o Sol da Primavera.»

No Cosmos pois se deu tal coisa grandiosa:
O Sol uniu-se à Lua, o cardo uniu-se à rosa,
E das químicas bodas do macho coa fêmea
O grão Semeador extraiu a sua sêmea.

E eis que Satanás, por fim unido a Cristo,
Gerou a Humanidade da época da Luz;
Novo homem nasceu com Hermes Trismegisto,
Novo Éden surgiu, e não é precisa a Cruz.

Paulo Brito e Abreu

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